A BMW vai cortar até 8.000 empregos e ninguém na Alemanha ficou surpreendido
O programa de saídas voluntárias da BMW arranca em outubro e vai até ao fim de 2027. As fábricas ficam de fora, o corte é na administração, e a poupança prevista é de mil milhões por ano.
A BMW confirmou um programa de saídas voluntárias que pode levar até 8.000 pessoas a sair da empresa, negociado com os representantes dos trabalhadores. Arranca em outubro e prolonga-se até ao final de 2027. Não há despedimentos obrigatórios e as fábricas ficam praticamente intocadas: o corte concentra-se na administração e nas áreas de desenvolvimento.
Porque é que a BMW está a cortar se continua a vender?
Porque as contas do futuro não batem certo. A marca conta poupar cerca de mil milhões de euros por ano a partir de 2028, e precisa desse dinheiro para financiar a transição para o eléctrico ao mesmo tempo que defende a quota que os construtores chineses lhe estão a tirar, sobretudo dentro da própria China. Cortar estrutura agora é a forma menos dolorosa de libertar margem antes de a concorrência apertar mais.
O que torna isto pesado não é a BMW isolada. É o padrão. A Volkswagen já sinalizou querer eliminar até 100 mil postos a nível global, e a Porsche anunciou mais 5.000 cortes em Zuffenhausen e no centro de desenvolvimento de Weissach, em troca de uma garantia de emprego até 2035 e de 2,1 mil milhões de investimento. Três marcas, três estratégias, o mesmo diagnóstico.
O que é que isto tem que ver com Portugal?
Mais do que parece. A Alemanha é o principal destino dos componentes automóveis portugueses, e o sector emprega dezenas de milhares de pessoas entre Palmela, Vouzela, Leiria e Braga. Quando os construtores alemães encolhem estruturas e adiam plataformas, as encomendas às fábricas ibéricas ajustam-se com alguns meses de atraso — não desaparecem, mas mudam de ritmo e de preço.
Para já, nada disto é dramático para quem cá está: falamos de saídas voluntárias espalhadas por 15 meses, não de fecho de linhas. Mas é mais um sinal de que a Europa do automóvel está a arrumar a casa, e é um contexto a ter na cabeça quando se lê que a economia portuguesa abranda este ano e quase não levanta em 2027. As contas e o programa oficial estão no site do grupo BMW.
Por Beatriz Mota
Imagem: Diego Delso / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)