Dos 507 ministros desde 1976, 113 chegaram ao Governo sem experiência na pasta
Um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos percorre meio século de governos. A conclusão que interessa não é a falta de currículo: é que os ministros ficaram mais especializados sem que os partidos largassem o controlo.
A Fundação Francisco Manuel dos Santos divulgou esta segunda-feira o estudo “Quem Governa Portugal? Perfis ministeriais em perspetiva comparada (1976-2025)”, coordenado por Marcelo Camerlo e António Costa Pinto, que percorre os 507 ministros nomeados em meio século de democracia e compara Portugal com Espanha, Itália e Grécia. O número que saltou logo para os títulos foi este: 113 ministros, 22% do total, assumiram uma pasta sem qualquer experiência profissional relevante para ela.
O resto da distribuição é bem menos dramático. 43,4% chegaram com experiência forte na área, incluindo funções de responsabilidade no setor, e outros 34% tinham alguma ligação ao tema ou cargos anteriores, ainda que sem chegar ao topo. Canudo, quase todos têm: 98,4% dos ministros portugueses passaram pelo ensino superior.
Só que a conclusão mais interessante do estudo não é sobre currículos. É sobre quem manda. Ao longo de cinquenta anos a especialização subiu de forma clara — os primeiros executivos eram dominados por políticos, e a partir da primeira maioria de Cavaco Silva, em 1987, as credenciais de gestão e a experiência profissional foram ganhando peso. A dependência dos partidos, essa, não foi a lado nenhum.
Mais especialistas, mais partido
Os dois primeiros governos de António Costa são os mais equilibrados de todo o período analisado: 52% de ministros partidários contra 48% de não-partidários no primeiro, 53% contra 47% no segundo. Nos governos de Luís Montenegro, desde 2024, os partidários andam entre os 69% e os 71%. E não falamos de militantes de base. Setenta por cento dos ministros partidários são aquilo a que o estudo chama pesos-pesados: dirigentes de topo ou figuras com peso próprio dentro da máquina do partido. Tendem a ficar com as pastas de coordenação, enquanto as áreas económicas e sociais, mais técnicas, é que abrem espaço a independentes.
Mesmo a independência é relativa. Mais de um terço dos ministros nunca teve cartão de partido, mas se excluirmos os três governos de iniciativa presidencial do final dos anos 70 a percentagem cai de 36% para cerca de 29% — e metade desses são semi-independentes, pessoas formalmente sem partido mas com uma trajetória inteira de colaboração política. Os autores têm um nome para o arranjo: tecnocratismo endógeno, competência técnica incorporada sem perda de controlo político.
E quando a economia aperta?
Aqui o estudo contraria a intuição. A literatura diz que, em crise, os partidos chamam tecnocratas — ganham credibilidade e afastam de si a responsabilidade pelas medidas impopulares. Os dados portugueses dizem o contrário. Quando a inflação acelera e o desemprego sobe, o que aumenta é a proporção de ministros políticos, e a presença de peritos não cresce de forma estatisticamente significativa. Nem sequer nas pastas técnicas.
Os próprios autores pedem prudência, porque a base de dados é pequena e uma associação não é uma causa. Ainda assim, a leitura que fica é essa: em Portugal, a pressão económica parece valorizar a lealdade e a capacidade de coordenação tanto quanto o currículo. É um contexto útil para ler a agenda fiscal que o Governo prometeu para o outono ou a reorganização interna que o Chega marcou para novembro. Quem fica com as pastas de coordenação raramente é acaso.
Gráfico: Tugadaily, com dados da Fundação Francisco Manuel dos Santos